sábado, 31 de outubro de 2009

O Candomblé no Rio de Janeiro de 1904.

Tia Ciata (Assiata) e Tia Josefa (foto em http://www.titanproducoes.com.br)

"NO MUNDO DOS FEITIÇOS"
"OS FEITICEIROS"

"Antônio é como aqueles adolescentes africanos de que fala o escritor inglês. Os
adolescentes sabiam dos deuses católicos e dos seus próprios deuses, mas só veneravam o
uísque e o schilling. Antônio conhece muito bem N. S.ª das Dores, está familiarizado com os
orixálas da África, mas só respeita o papel-moeda e o vinho do Porto. Graças a esses dois
poderosos agentes, gozei da intimidade de Antônio, negro inteligente e vivaz; graças a Antônio,
conheci as casas das ruas de São Diogo, Barão de S. Felix, Hospício, Núncio e da América,
onde se realizam os candomblés e vivem os pais-de-santo. E rendi graças a Deus, porque não
há decerto, em toda a cidade, meio tão interessante.
Vai V.S. admirar muita coisa! - dizia Antônio a sorrir; e dizia a verdade.
Da grande quantidade de escravos africanos vindos para o Rio no tempo do Brasil colônia e
do Brasil monarquia, restam uns mil negros. São todos das pequenas nações do interior da
África, pertencem ao igesá, oié, ebá, aboum, haussá, itaqua, ou se consideram filhos dos
ibouam, ixáu dos gêge e dos cambindas. Alguns ricos mandam a descendência brasileira à
África para estudar a religião, outros deixam como dote aos filhos cruzados daqui os mistérios e
as feitiçarias. Todos, porém, falam entre si um idioma comum: - o eubá.
Antônio, que estudou em Lagos, dizia:
- O eubá para os africanos é como o inglês para os povos civilizados. Quem fala o eubá
pode atravessar a África e viver entre os pretos do Rio. Só os cambindas ignoram o eubá, mas
esses ignoram até a própria língua, que é muito difícil. Quando os cambindas falam, misturam
todas as línguas... Agora os orixás e os alufás só falam o eubá.
- Orixás, alufás? - fiz eu, admirado.
- São duas religiões inteiramente diversas. Vai ver.
Com efeito. Os negros africanos dividem-se em duas grandes crenças: os orixás e os
alufás.
Os orixás, em maior número, são os mais complicados e os mais animistas. Litólatras e
fitólatras, têm um enorme arsenal de santos, confundem os santos católicos com os seus
santos, e vivem a vida dupla, encontrando em cada pedra, em cada casco de tartaruga, em cada
erva, uma alma e um espírito. Essa espécie de politeísmo bárbaro tem divindades que se
manifestam e divindades invisíveis. Os negros guardam a idéia de um Deus absoluto como o
Deus católico: Orixa-alúm. A lista dos santos é infindável. Há o orixalá, que é o mais velho,
Axum, a mãe dágua doce, Ie-man- já, a sereia, Exu, o diabo, que anda sempre detrás da porta,
Sapanam, o Santíssimo Sacramento dos católicos, o Irocô, cuja aparição se faz na árvore
sagrada da gameleira, o Gunocô, tremendo e grande, o Ogum, S. Jorge ou o Deus da guerra, a
Dadá, a Orainha, que são invisíveis, e muitos outros, como o santo do trovão e o santo das
ervas. A juntar a essa coleção complicada, têm os negros ainda os espíritos maus e os heledás
ou anjos da guarda.
É natural que para corresponder à hierarquia celeste seja necessária uma hierarquia
eclesiástica. As criaturas vivem em poder do invisível e só quem tem estudos e preparo pode
saber o que os santos querem. Há por isso grande quantidade de autoridades religiosas. Às
vezes encontramos nas ruas negros retintos que mastigam sem cessar. São babalaôs,
matemáticos geniais, sabedores dos segredos santos e do futuro da gente; são babás que
atiram o endilogum; são babaloxás, pais-de-santos veneráveis. Nos lanhos da cara puseram o
pó da salvação e na boca têm sempre o obi, noz de cola, boa para o estômago e asseguradora
das pragas.

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Antônio, que conversava dos progressos da magia na África, disse-me um dia que era
como Renan e Shakespeare: vivia na dúvida. Isso não o impedia de acreditar nas pragas e no
trabalhão que os santos africanos dão.
- V. s. não imagina! Santo tem a festa anual, aparece de repente à pessoa em que se quer
meter e esta é obrigada logo a fazer festa; santo comparece ao juramento das Iauô e passa
fora, do Carnaval à Semana Santa; e logo quer mais festa... Só descansa mesmo de fevereiro a
abril.
- Estão veraneando.
- No carnaval os negros fazem ebó.
- Que vem a ser ebó?
- Ebó é despacho. Os santos vão todos para o campo e ficam lá descansando.
- Talvez estejam em Petrópolis.
- Não. Santo deixa a cidade pelo mato, está mesmo entre as ervas.
- Mas quais são os cargos religiosos?
- Há os babalaôs, os açoba, os aboré, grau máximo, as mães-pequenas, os ogan, as
agibonam...
A lista é como a dos santos, muito comprida, e cada um desses personagens representa
papel distinto nos sacrifícios, nos candomblés e nas feitiçarias. Antônio mostra-me os mais
notáveis, os pais-de-santo: Oluou, Eruosaim, Alamijo, Adé-Oié, os babalaôs Emídio, Oloô-teté,
que significa treme-treme, e um bando de feiticeiros: Torquato requipá ou fogo pára-chuva,
Obitaiô, Vagô, Apotijá, Veridiana, Crioula Capitão, Rosenda, Nosuanan, a célebre Chica de
Vavá, que um político economista protege...
- A Chica tem proteção política?
- Ora se tem! Mas que pensa o senhor? Há homens importantes que devem quantias
avultadas aos alufás e babalaôs que são grau 32 da Maçonaria.
Dessa gente, poucos lêem. Outrora ainda havia sábios que destrinçavam o livro sagrado e
sabiam porque Exu é mau - tudo direitinho e claro como água. Hoje a aprendizagem é feita de
ouvido. O africano egoísta pai-de-santo, ensina ao aboré, as iauô quando lhes entrega a
navalha, de modo que não só a arte perde muitas das suas fases curiosas como as histórias são
adulteradas e esquecidas.
- Também agora não é preciso saber o Saó Hauin. Negro só olhando e sabendo o nome da
pessoa pode fazer mal, diz Antônio.
Os orixás são em geral polígamos. Nessas casas das ruas centrais de uma grande cidade,
há homens que vivem rodeados de mulheres, e cada noite, como nos sertões da África, o leito
do babaloxás é ocupado por uma das esposas. Não há ciúmes, a mais velha anuncia quem a
deve substituir, e todas trabalham para a tranqüilidade do pai. Oloô-Teté, um velho que tem
noventa anos no mínimo, ainda conserva a companheira nas delícias do himeneu, e os mais
sacudidos transformam as filhas-de-santo em huris de serralhos.
Os alulás têm um rito diverso. São maometanos com um fundo de misticismo. Quase todos
dão para estudar a religião, e os próprios malandros que lhes usurpam o título sabem mais que
os orixás.
Logo depois do suma ou batismo e da circuncisão ou kola, os alufás habilitam-se à leitura
do Alcorão. A sua obrigação é o kissium, a prece. Rezam ao tomar banho, lavando a ponta dos
dedos, os pés e o nariz, rezam de manhã, rezam ao pôr-do-sol. Eu os vi, retintos, com a cara
reluzente entre as barbas brancas, fazendo o aluma gariba, quando o crescente lunar aparecia
no céu. Para essas preces, vestem o abadá, uma túnica branca de mangas perdidas, enterram
na cabeça um filá vermelho, donde pende uma faixa branca, e, à noite, o kissium continua,
sentados eles em pele de carneiro ou de tigre.
- Só os alufás ricos sentam-se em peles de tigre, diz-nos Antônio.
Essas criaturas contam à noite o rosário ou tessubá, têm o preceito de não comer carne de
porco, escrevem as orações numas taboas, as atô, com tinta feita de arroz queimado, e jejuam
como os judeus quarenta dias a fio, só tomando refeições de madrugada e ao pôr-do-sol.
Gente de cerimonial, depois do assumy, não há festa mais importante como a do ramadan,
em que trocam o saká ou presentes mútuos. Tanto a sua administração religiosa como a
judiciária estão por inteiro independentes da terra em que vivem.

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Há em várias tribos vigários gerais ou ladamos, obedecendo ao lemano, o bispo, e a parte
judiciária está a cargo dos alikaly, Juizes, sagabamo, imediatos de juizes, e assivajiú, mestre de
cerimônias.
Para ser alufá é preciso grande estudo, e esses pretos que se fingem sérios, que se casam
com gravidade, não deixam também de fazer amuré com três e quatro mulheres.
- Quando o jovem alufá termina o seu exame, os outros dançam o opasuma e conduzem o
iniciado a cavalo pelas ruas, para significar o triunfo.
- Mas essas passeatas são impossíveis aqui, brado eu.
- Não são. As cerimônias realizam-se sempre nas estações dos subúrbios, em lugares
afastados, e os alufás, vestem as suas roupas brancas e o seu gorro vermelho.
Naturalmente Antônio fez-me conhecer os alufás:
Alikali; o lemano atual, um preto de pernas tortas, morador à rua Barão de S. Félix, que
incute respeito e terror; o Chico Mina, cuja filha estuda violino, Alufapão, Ojó, Abacajebú, Ginjá,
Manê, brasileiro de nascimento, e outros muitos.
Os alufás não gostam da gente de santo a que chamam auauadó-chum; a gente de santo
despreza os bichos que não comem porco, tratando-os de malés. Mas acham-se todos
relacionados pela língua, com costumes exteriores mais ou menos idênticos e vivendo da
feitiçaria. Os orixás fazem sacrifícios, afogam os santos em sangue, dão-lhes comidas, enfeites
e azeite-de-dendê.
Os alufás, superiores, apesar da proibição da crença, usam dos aligenum, espíritos
diabólicos chamados para o bem e o mal, num livro de sortes marcado com tinta vermelha e
alguns, os maiores, como Alikali, fazem até idams ou as grandes mágicas, em que a uma
palavra cabalística a chuva deixa de cair e obis aparecem em pratos vazios.
Antes de estudar os feitiços, as práticas por que passam as iauô nas camarinhas e a
maneira dos cultos, quis ter uma impressão vaga das casas e dos homens.
Antônio levou-me primeiro à residência de um feiticeiro alufá. Pelas mesas, livros com
escrituras complicadas, ervas, coelhos, esteiras, um calamo de bambu finíssimo.
Da porta o guia gritou:
- Salamaleco.
Ninguém respondeu.
- Salamaleco!
- Maneco Lassalama!
No canto da sala, sentado numa pele de carneiro, um preto desfiava o rosário, com os olhos
fixos no alto.
- Não é possível falar agora. Ele está rezando e não quer conversar. Saímos, e logo na rua
encontramos o Xico Mina. Este veste, como qualquer de nós, ternos claros e usa suíças
cortadas rentes. Já o conhecia de o ver nos cafés concorridos, conversando com alguns
deputados. Quando nos viu, passou rápido.
- Está com medo de perguntas. Chico gosta de fingir.
Entretanto, no trajeto que fizemos do Largo da Carioca à praça da Aclamação,
encontramos, a fora um esverdeado discípulo de Alikali, Omancheo, como eles dizem, duas
mães-de-santo, um velho babalaô e dois babaloxás.
Nós íamos à casa do velho matemático Oloô-Teté.
As casas dos minas conservam a sua aparência de outrora, mas estão cheias de negros
baianos e de mulatos. São quase sempre rótulas lobregas, onde vivem com o personagem
principal cinco, seis e mais pessoas. Nas salas, móveis quebrados e sujos, esteirinhas, bancos;
por cima das mesas, terrinas, pucarinhos de água, chapéus de palha, ervas, pastas de oleado
onde se guarda o opelé; nas paredes, atabaques, vestuários esquisitos, vidros; e no quintal,
quase sempre jabotis, galinhas pretas, galos e cabritos.
Há na atmosfera um cheiro carregado de azeite-de-dendê, pimenta-da-costa e catinga. Os
pretos falam da falta de trabalho, fumando grossos cigarros de palha. Não fosse a credulidade,
a vida ser-lhes-ia difícil, porque em cada um dos seus gestos revela-se uma lombeira secular.
Alguns velhos passam a vida sentados, a dormitar.
- Está pensando! - dizem os outros.

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De repente, os pobres velhos ingênuos acordam, com um sonho mais forte nessa confusa
existência de pedras animadas e ervas com espírito.
- Xangô diz que eu tenho de fazer sacrifício!
Xangô, o deus do trovão, ordenou no sono, e o opelê, feito de cascas de tartaruga e
batizado com sangue, cai na mesa enodoada para dizer com que sacrifício se contenta Xangô.
Outros, os mais malandros, passam a existência deitados no sofá. As filhas-de-santo,
prostitutas algumas, concorrem para lhes descansar a existência, a gente que as vai procurar
dá-lhes o supérfluo. A preocupação destes é saber mais coisas, os feitiços desconhecidos, e
quando entra o que sabe todos os mistérios, ajoelham assustados e beijam-lhe a mão,
soluçando:
- Diz como se faz a cantiga e eu te dou todo o meu dinheiro!
À tarde, chegam as mulheres, e os que por acaso trabalham em alguma pedreira. Os
feiticeiros conversam de casos, criticam-se uns aos outros, falam com intimidade das figuras
mais salientes, do país, do imperador, de que quase todos têm o retrato, de Cotegipe, do barão
de Mamanguape, dos presidentes da República.
As mulheres ouvem mastigando obi e cantando melopéas sinistramente doces. Essas
melopéas são quase sempre as preces, as evocações, e repetem sem modalidade, por tempo
indeterminado, a mesma frase.
Só pelos candomblés ou sessões de grande feitiçaria, em que os babalaôs estão atentos e
os pais-de-santo trabalham dia e noite nas camarinhas ou fazendo evocações diante dos
fogareiros com o tessubá na mão, é que a vida dessa gente deixa a sua calma amolecida de
acassá com azeite-de-dendê.
Quando entramos na casa de Oloô-Teté, o matemático macróbio e sensual, uma velha
mina, que cantava sonambulicamente, parou de repente.
- Pode continuar.
Ela disse qualquer coisa de incompreensível.
- Está perguntando se o senhor lhe dá dois tostões, ensina-nos Antônio.
- Não há dúvida.
A preta escancara a boca, e, batendo as mãos, põe-se a cantar:
Baba ounlô, ó xocotám, o ilélê.
- Que vem a ser isso?
- É o final das festas, quando o santo vai embora. Quer dizer: papai já foi, já fez, já acabou;
vai embora!
Eu olhava a réstia estreita do quintal onde dormiam jabotis.
- O jaboti é um animal sagrado?
- Não, diz-nos o sábio Antônio. Cada santo gosta do seu animal. Xangô, por exemplo, come
jaboti, galo e carneiro. Abaluaié, pai de varíola, só gosta de cabrito. Os pais-de-santo são
obrigados pela sua qualidade a fazer criação de bichos para vender e tê-los sempre à
disposição quando precisam de sacrifício. O jaboti é apenas um bicho que dá felicidade. O
sacrifício é simples. Lava-se bem, às vezes até com champanha, a pedra que tem o santo e
põe-se dentro da terrina. O sangue do animal escorre; algumas das partes são levadas para
onde o santo diz e o resto a roda come.
- Mas há sacrifícios maiores para fazer mal às pessoas?
- Há! para esses até se matam bois.
- Feitiço pega sempre, sentencia o ilustre Oloô-Tetê, com a sua prática venerável. Não há
corpo-fechado. Só o que tem é que uns custam mais. Feitiço para pegar em preto é um instante,
para mulato já custa, e então para cair em cima de branco a gente sua até não poder mais. Mas
pega sempre. Por isso preto usa sempre o assiqui, a cobertura, o breve, e não deixa de mastigar
obi, noz de cola preservativa.
Para mim, homem amável, presentes alguns companheiros seus, Oloô-Tetê tirou o opelé
que há muitos anos foi batizado e prognosticou o meu futuro.
Este futuro vai ser interessante. Segundo as cascas de tartaruga que se voltavam sempre
aos pares, serei felicíssimo, ascendendo com a rapidez dos automóveis a escada de Jacó das
posições felizes. É verdade que um inimigozinho malandro pretende perder-me. Eu, porém, o
esmagarei, viajando sempre com cargos elevados e sendo admirado.

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Abracei respeitoso o matemático que resolvera o quadrado da hipotenusa do desconhecido.
- Põe dinheiro aqui - fez ele.
Dei-lhe as notas. Com as mãos trêmulas, o sábio a apalpou longamente.
- Pega agora nesta pedra e nesta concha. Pede o que tiveres vontade à concha, dizendo
sim, e à pedra dizendo não.
Assim fiz. O opelé caiu de novo no encerado. A concha estava na mão direita de Antônio, a
pedra na esquerda, e Oloô tremia falando ao santo, com os negros dedos trêmulos no ar.
- Abra a mão direita! ordenou.
Era a concha.
- Se acontecer, ossumcê dá presente a Oloô?
- Mas decerto.
Ele correu a consultar o opelé. Depois sorriu.
- Dá, sim, santo diz que dá. - E receitou-me os preservativos com que eu serei invulnerável.
Também eu sorria. Pobre velho malandro e ingênuo! Eu perguntara apenas,
modestamente, à concha do futuro se seria imperador da China... Enquanto isso, a negra da
cantiga entoava outra mais alegre, com grande gestos e risos.
O loô-ré, xa-la-ré
Camurá-ridé
O loô-ré, xa-la-ré
Camurá-ridé
- E esta, o que quer dizer?
- É uma cantiga de Orixalá. Significa: O homem do dinheiro está aí. Vamos erguê-lo...
Apertei-lhe a mão jubiloso e reconhecido. Na alusão da ode selvagem a lisonja vivia o
encanto da sua vida eterna...
AS IAUÔ
A recordação de um fato triste - a morte de uma rapariga que fora à Bahia fazer-santo -
deu-me ânimo e curiosidade para estudar um dos mais bárbaros e inexplicáveis costumes dos
fetiches do Rio.
Fazer-santo é a renda direta dos babaloxás, mas ser filha-de-santo é sacrificar a liberdade,
escravizar-se, sofrer, delirar.
Os transeuntes honestos, que passeiam na rua com indiferença, não imaginam sequer as
cenas de Salpetrière africana passadas por trás das rótulas sujas.
As iauô abundam nesta Babel da crença, cruzam-se com a gente diariamente, sorriem aos
soldados ébrios nos prostíbulos baratos, mercadejam doces nas praças, às portas dos
estabelecimentos comerciais, fornecem ao Hospício a sua quota de loucura, propagam a
histeria entre as senhoras honestas e as cocottes, exploram e são exploradas, vivem da
crendice e alimentam o caftismo inconsciente. As iauô, são as demoníacas e as grandes
farsistas da raça preta, as obsedadas e as delirantes. A história de cada uma delas, quando não
é uma sinistra pantomima de álcool e mancebia, é um tecido de fatos cruéis, anormais, inéditos,
feitos de invisível, de sangue e de morte. Nas iauô está a base do culto africano. Todas elas
usam sinais exteriores do santo, as vestimentas simbólicas, os rosários e os colares de contas
com as cores preferidas da divindade a que pertencem; todas elas estão ligadas ao rito
selvagem por mistérios que as obrigam a gastar a vida em festejos, a sentir o santo e a respeitar
o pai-de-santo.
Fazer-santo é colocar-se sobre o patrocínio de um fetiche qualquer, é ser batizado por ele,
e por espontânea vontade dele. As negras, insensíveis a quase todas as delicadezas que
produzem ataques na haute-gomme, são, entretanto, de uma impressionabilidade mórbida por
tudo quanto é abusão. Da convivência com os maiores nesse horizonte de chumbo, de
atmosfera de feitiçarias e pavores, nasce-lhes a necessidade iniludível de fazer também o santo;
e não é possível demovê-las, umas porque a miragem da felicidade as cega, outras porque já

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estão votadas à loucura e ao alcoolismo. Entre as tribos do interior da África, há o sacrifício do
agamum, em que se esmagam vivas as crianças de seis meses. Ao Moloch das vesânias a raça
preta sacrifica aqui uma quantidade assustadora de homens e de mulheres.
Antônio, que me mostrara a maior parte das casas-de-santo, disse-me um dia:
- Vou levá-lo hoje a ver o 16.º dia de uma iauô.
Para que uma mulher saiba a vinda do santo, basta encontrar na rua um fetiche qualquer,
pedra, pedaço de ferro ou concha do mar. De tal maneira estão sugestionadas, que vão logo
aos babalaôs indagar do futuro. Os babalaôs, a troco de dinheiro, jogam o edilogum, os búzios,
e servem-se também por aproximação dos signos do zodíaco.
- O mês do Capricórnio - diz Antônio - compreende todos os animais parecidos, a cabra, o
carneiro, o cabrito, e segundo o cálculo do dia e o animal preferido pelo santo, os matemáticos
descobrem quem é.
Quando já sabe o santo, babalaô atira a sorte no obelê para perguntar se é de dever fazê-
lo. A natureza mesmo do culto, a necessidade de conservar as cerimônias e a avidez de ganho
da própria indolência fazem o sábio obter uma resposta afirmativa.
Algumas criaturas paupérrimas batem então nas faces e pedem:
- Eu quero ter o santo assentado!
É mais fácil. Os pais-de-santo dão-lhe ervas, uma pedra bem lavada, em que está o santo,
um rosário de contas que se usa no pescoço depois de purificado o corpo por um banho.
Nessas ocasiões o vadio invisível contenta-se com o ebó, despacho, algumas comedorias com
azeite-de-dendê, ervas e sangue, deixadas na encruzilhada dos caminhos.
Quase sempre, porém, as vitimas sujeitam-se, e não é raro, mesmo quando são pobres os
pais, a aceitarem o trabalho com a condição de as vender em leilão ou serem servidos por elas
durante longo tempo. Como as despesas são grandes, as futuras iauô levam meses fazendo
economias, poupando, sacrificando-se. E de obrigação levar comidas, presentes, dinheiro ao
pai-de-santo para a sua estada no ylê ache-ó-ylê-orixá, estada que regula de 12 a 30 dias.
- Isto acontece só para as iauô dos orixás, - diz Antônio.
- Há outras?
- Há as dos negros cambindas. Também essa gente é ordinária, copia os processos dos
outros e está de tal forma ignorante que até as cantigas das suas festas têm pedaços em
português.
- Mas entre os cambindas tudo é diferente?
- Mais ou menos. Olhe por exemplo os santos.
Orixalá é Ganga-Zumba, Obaluaci, Cangira-Mungongo, Exu, Cubango, Orixá-oco,
Pombagira, Oxum, a mãe d'água, Sinhá Renga, Sapanam, Cargamela. E não é só aos santos
dos orixás que os cambindas mudam o nome, é também aos santos das igrejas. Assim S.
Benedito é chamado Lingongo, S. Antônio, Verequete, N. Senhora das Dores, Sinhá Samba.
Para os cambindas serve para santo qualquer pedra, os paralelepípedos, as lascas das
pedreiras e esses pretos sem-vergonha adoram a flor do girassol que simboliza a lua...
Eu estava atônito. Positivamente Antônio achava muito inferiores os cambindas.
- As iauô?
- As filhas-de-santo macumbas ou cambindas chegam a ter uma porção de santos de cada
vez, manifestando-se na sua cabeça. Sabe V.S. o que cantam eles quando a yauô está com a
crise?
Maria Mucangué
Lava roupa de sinhá,
Lava camisa de chita,
Não é dela, é de yayá.
- Quer ouvir outra?

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Bumba, bumba, ó calunga,
Tanto quebra cadeira como quebra sofá
Bumba, bumba, ó calunga.
Houve uma pausa e Antônio concluiu:
- Por negro cambinda é que se compreende que africano foi escravo de branco.
Cambinda é burro e sem-vergonha!
Disse e voltou à narrativa da iniciação das iauô.
Antes de entrar para camarinha, a mulher, predisposta pela fixidez da atenção a todas as
sugestões, presta juramento de guardar o segredo do que viu, toma um banho purificador e à
meia-noite começa a cerimônia. A iauô senta-se numa cadeira vestida de branco com o ojá
apertando a cintura. Todos em derredor entoam a primeira cantiga a Exu.
Echu tiriri, lô-nam bará ô bebê.
Tiriri lo-nam Echu tiriri.
O babaloxá pergunta ao santo para, onde deve ir o cabelo que vai cortar à futura filha, e,
depois de ardente meditação, indica com aparato a ordem divina. Essas descobertas são
fatalmente as mesmas no centro de uma cidade populosa como a nossa. Se o santo é a mãe
d'agua doce, Oxum, o cabelo vai para a Tijuca, a Fábrica das Chitas; se é Ié-man-ja fica na praia
do Russel, em Santa Luzia; se é outro santo qualquer, basta um trecho de praça em que as ruas
se cruzem.
As rezas começam então; o pai-de-santo molha a cabeça da iauô com uma composição de
ervas e com afiadíssima navalha faz-lhe uma coroa, enquanto a roda canta triste.
Orixalá otô ô yauô!
Essa parte do cabelo é guardada eternamente e a iauô não deve saber nunca onde a
guardam, porque lhe acontece desgraça. Em seguida, o lúgubre barbeiro raspa-lhe
circularmente o crânio, e quando a carapinha cai no alguidar, a operada já perdeu a razão.
Babaloxá, lava-lhe ainda a cabeça com o sangue dos animais esfaqueados pelos ogans, e
as iauô antigas levam-na a mudar a roupa, enquanto se preparam com ervas os cabelos do
alguidar.
Daí a momentos a iniciada aparece com outros fatos, pega no alguidar e sai acompanhada
das outras, que a amparam e cantam baixo o ofertório ao santo. Em chegando ao lugar
indicado, a hipnotizada deixa a vaso, volta e é recebida pelo pai, que entorna em frente à porta
um copo d'água.
A nova iauô vai então descansar, enquanto os outros rezam na camarinha em frente ao
estado-maior.
- O estado-maior? - indago eu, assustado com o exército misterioso. O estado-maior é a
coleção de terrinas e sopeiras colocadas numa espécie de prateleiras de bazar. Nas sopeiras
estão todos os santos pequenos e grandes. Há desde as terrinas de granito às de porcelanas
com frisos de ouro, rodeando armações de ferro, onde se guarda o Ogum, o São Jorge da
África.
No dia seguinte à cerimônia, a iauô lava-se e vai à presença do pai para ver se tem
espíritos contrários.
Se os espíritos existem, o pai poderoso afasta a influência nefasta por meio de ebós e
ogunguns. A iauô é obrigada a não falar a ninguém: quando deseja alguma coisa, bate palmas e
só a ajuda nesses dias a mãe-pequena ou Iaque-que-rê. As danças para preparo de santo
realizam-se nos 1.º, 3.º, 7.º, 12.º, e no 16.º dia o santo revela-se.
- Mas que adianta isso às iauô?
- Nada. O pai-de-santo domina-as. O erô ou segredo que lhe dá, pode retirá-lo quando lhe
apraz; o poder de as transformar e fazer-lhes mal está em virar o santo sempre que tem
vontade.
- E quando essas criaturas morrem?

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- Faz-se a obrigação raspando um pouco de cabelo para saber se o santo também vai, e o
babaloxá procura um colega para lhe tirar a mão do finado.
As cerimônias das iauô renovam-se de resto de seis em seis meses, de ano em ano, até à
morte. São elas que em grande parte sustentam o culto.
Quando a iauô não tem dinheiro, ou o pai vende-a em leilão ou a guarda como serva. Desta
convivência é que algumas chegam a ser mães-de-santo, para o que basta dar-lhe o babaloxá
uma navalha.
- E há muita mãe-de-santo?
- Umas cinqüenta, contando com as falsas. Só agora lembro-me de várias: a Josefa, a Calu
Boneca, a Henriqueta da Praia, a Maria Marota, que vende à porta do Glacier, a Maria do
Bonfim, a Martinha da rua do Regente, a Zebinda, a Chica de Vavá, a Aminam pé-de-boi, a
Maria Luiza, que é também sedutora de senhoras honestas, a Flora Coco Podre, a Dudu do
Sacramento, a Bitaiô, que está agora guiando seis ou oito filhas, a Assiata.
Esta é de força. Não tem navalha, finge de mãe-de-santo e trabalha com três ogans falsos
- João Ratão, um moleque chamado Macário e certo cabra pernóstico, o Germano. A Assiata
mora na rua da Alfândega, 304. Ainda outro dia houve lá um escândalo dos diabos, porque a
Assiata meteu na festa de Iemanjá algumas iauô feitas por ela. Os pais-de-santo protestaram, a
negra danou, e teve que pagar a multa marcada pelo santo. Essa é uma das feiticeiras de
embromação.
Nesse mesmo dia Antônio veio buscar-me à tarde.
- A casa a que vai V.S. é de um grande feiticeiro; verá se não há fatos verdadeiros.
Quando chegamos, a sala estava enfeitada. Em derredor sentavam-se muitos negros e
negras mastigando olobó, ou cola amargosa, com as roupas lavadas e as faces reluzentes. A
um canto, os músicos, fisionomias estranhas, faziam soar, com sacolejos compassados, o
xequerêe, os atabaques e ubatás, com movimentos de braços desvairadamente regulares. Não
se respirava bem.
A cachaça, circulando sem cessar, ensangüentava os olhos amarelos dos assistentes.
- As vezes tudo é mentira, à custa de cachaça e fingimento - diz Antônio. Quando o santo
não vem, o pai fica desmoralizado. Mas aqui é de verdade...
Olhei o célebre pai-de-santo, cujas filhas são sem conta. Estava sentado à porta da
camarinha, mas levantou-se logo, e a negra iniciada entrou, de camisola branca, com um leque
de metal chocalhante. Fula, com uma extraordinária fadiga nos membros lassos, os seus olhos
brilhavam satânicos sob o capacete de pinturas bizarras com que lhe tinham brochado o crânio.
Diante do pai estirou-se a fio comprido, bateu com as faces no assoalho, ajoelhou e beijou-lhe a
mão. Babaloxá fez um gesto de bênção, e ela foi, rojou-se de novo diante de outras pessoas. O
som do agogó arrastou no ar os primeiros batuques e os arranhados do xequeré. A negra
ergueu-se e, estendendo as mãos para um e para outro lado, começou a traçar passos, sorrindo
idiotamente. Só então notei que tinha na cabeça uma esquisita espécie de cone.
- É o ado-chú, que faz vir o santo - explica Antônio. - É feito com sangue e ervas. Se o ado-
chú cai, santo não vem.
A negra, parecia aos poucos animar-se, sacudindo o leque de metal chocalhante.
Em derredor, a música acompanhava as cantigas, que repetiam indefinidamente a mesma
frase.
As dança dessas cerimônias é mais ou menos precipitada, mas sem os pulos satânicos dos
Cafres e a vertigem diabólica dos negros da Luisiania. É simples, contínua e insistente,
horrendamente insistente. Os passos constantes são o alujá, em roda da casa, dando com as
mãos para a direita e para a esquerda, e o jêquedê, em que ao compasso dos atabaques, com
os pés juntos, os corpos se quebram aos poucos em remexidos sinistros. Não sei se o
enervante som da música destilando aos poucos desespero, se a cachaça, se o exercício, o fato
é que, em pouco, a iauô parecia reanimar-se, perder a fadiga numa raiva de louca. De cada
xequexé-xequexé que a mão de um negro sacudia no ar, vinha um espicaçamento de urtiga,
das bocas cusparinhentas dos assistentes escorria a alucinação. Aos poucos, outros negros,
não podendo mais, saltaram também na dança, e foi então entre as vozes, as palmas e os
instrumentos que repetiam no mesmo compasso o mesmo som, uma teoria de cara bêbedas
cabriolando precedidas de uma cabeça colorida que esgareiava lugubremente. A loucura
propagou-se. No meio do pandemônio vejo surgir o babaloxá com um desses vasos furados em
que se assam castanhas, cheio de brasas.

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- Que vai ele fazer?
- Cala, cala... é o pai, é o pai grande - balbucia Antônio.
As cantigas redobram com um furor que não se apressa. São como uma ânsia de
desesperado essas cantigas, como a agonia de um mesmo gesto arrancando dos olhos a
mesma lâmina de faca, são atrozes! O babaloxá coloca o cangirão ardente na cabeça da iauô,
que não cessa de dançar delirante, insensível, e, alteando o braço com um gesto dominador e
um sorriso que lhe prende o beiço aos ouvidos, entorna nas brasas fumegantes um alguidar
cheio de azeite-de-dendê.
Ouve-se o chiar do azeite nas chamas, a negra, bem no meio da sala, sacoleja-se num
jequedé lancinante, e pela sua cara suada, do cangirão ardente, e que não lhe queima a pele,
escorrem fios amarelos de azeite...
Ie-man-já atô cuaô.
continuava a turba.
- Não queimou, não queimou, ele é grande - fez Antônio.
Eu abrira os olhos para ver, para sentir bem o mistério da inaudita selvageria. Havia uma
hora, a negra dançava sem parar; pela face o dendê quente escorria benéfico aos santos. De
repente, porém ela estacou, caiu de joelhos, deu um grande grito.
- Emim oiá bonmim'. - Bradou.
- É o nome dela, o santo disse pela sua boca o nome que vai ter.
A sala rebentou num delírio infernal. O babaloxá gritava, com os olhos arregalados,
palavras guturais.
- Que diz ele?
- Que é grande, que vejam como é grande!
Criaturas rojavam-se aos pés do pai, beijando-lhes os dedos, negras uivavam, com as
mãos empoladas de bater palmas; dois ou três pretos aos sons dos xequerês sacudiam-se em
danças com o santo, e a iauô revirava os olhos, idiota, como se acordasse de uma grande e
estranha moléstia.
- Que vai ela fazer agora, Deus de misericórdia! - murmurei saindo.
- Vai trabalhar, pagar no fim de três meses a sua obrigação, ochu meta, dar dinheiro a pai-
de-santo, ganhar dinheiro...
- Sempre o dinheiro! - fiz eu olhando a velha casaria.
Antônio parou e disse:
- Não se engana V.S.
E limpando o suor do rosto, o negro concluiu com esta reflexão profunda:
- Neste mundo, nem os espíritos fazem qualquer coisa sem dinheiro e sem sacrifício!
Fomos pela rua estreita com a visão sinistra da pobre mártir aos pulos, dessa cabeça
pintada, entre os chocalhos e os atabaques, que dançava e gritava horrendamente..."

(Fonte:
João do Rio. As Religiões no Rio. Editora Nova Aguilar; Ed. 1976.)