sábado, 1 de novembro de 2008

AS ÁRVORES SAGRADAS DOS VODUNS (PARTE 3)

Lagenaria vulgaris, afrikana (Cabaceiro)
Cabaceiro ou Pé-de-Cabaça, como é popularmente conhecido no Brasil, e Pé-de Coité, que é um deles, porém, a subspécie africana, possuidora de uma parte longa em sua cabaça, é que é muito utilizada como um dos atins de Legba (vodun que corresponde ao Elegbara dos nagôs), também utiliza-se da cabaça, seu fruto, para confecção de utensílios rituais, domésticos e instrumentos musicais.
Possui propriedade medicamentosa, contudo não deve ser confundida com outras espécies por possuir um nome tão popular em terras brasileiras, na qual tem origem algumas espécies de Cabaceiro.

Butyrospermum paradoxum (Karité; Limu'tin, Wugo ou Kotoble; Akumolapa)
Esta árvore é a sapotácea da qual se prepara a “manteiga de karité” que serve como alimento e no preparo da alimentação, tanto no Benin, quanto na Nigéria onde é conhecida por Akumolapa.
O karité serve de tempero ritual claro e brando para certos voduns, é nutritivo e medicamentoso, entrando no preparo de ungëntos de uso tópico misturado com outras substâncias, servindo de veículo, também é utilizado para o alívio de queimaduras leves na pele. Seu uso cosmético é muito apreciado no ocidente.
Os mahis no Brasil denominam-a limu'tin, e à sua manteiga de karité: “Limu-da-costa”.

Mangifera indica; Mangifera africana (Dangbe, Dangbe-Ahoho, Maga'tin, Amaga'tin)
A conhecida árvore Mangueira, especialmente a da espécie dangbe, é consagrada ao vodun Dangbe e considerado o seu Ahoho, em alusão ao jassu, existem árvores de Dangbe antiquíssimas em Ouidah, onde são realizados preceitos em louvor a esta divindade. Da mesma forma reverencia-se este ancestral mahi no Brasil. Na cidade baiana de Cachoeira é realizada no mês de janeiro de cada ano uma festividade em honra deste vodun, que é conhecida como “Boitá de Gbesen”.
Este atin é de extrema importância dentro dos preceitos mahis, tanto no Benin, quanto na diáspora, costuma-se evocar, colocar oferendas a Dangbe em volta de sua árvore, suas festividades também são realizadas ali sob a Mangueira. No Benin uma das árvores sagradas do vodún Dangbé é o Hun ou Hun'tin, termo fongbè, conhecida no Brasil por Folha de Serra, Falsa Espinheira Santa, Cincho, etc.

Delonix regia (Flamboyant)
O Flamboyant (Flor-do-Paraíso; Pau-Rosa; Acácia-Rubra) é muito encontrado por todo o Brasil, é uma árvore originária de Madagascar. Sua flores são belíssimas e costumam ornamentar ruas e praças. Este atin é muito consagrado a Oya e também ao Sàngó (Heviosso). É indissociável a figura do Sàngó da cultura nagô com o vodun Hevisso, observado que o culto de Ayrá origina-se de Savé Okpara, segundo Verger em sua obra “Orixás”, para os mahis apenas o nome e a forma de reverenciar é que muda um pouco, são ambos voduns do céu, do trovão e da justiça. Ao passo que Weleketi (Wleketi) dos ewes é consorte de Heviosso, é a Oya dos nagôs quem cumpre este papel na concepção Jeje Mahi, sendo Avlekete (Vlekete; Avelekete) um vodun da família de Heviosso que também é cultuado nas praias, daí a razão de “Afrekete”, como é conhecida em Cuba, ser título de Iyémojà (Iyemanja).



Raphia hookeri; Raphia Vinifera (Zan)
Existem muitas variedades de palmeiras de ráfia no Benin, e de uma forma geral, todas elas servem para a confecção de objetos de culto e de utensílios domésticos, e também na alimentação. Da maioria delas se aproveita as folhas para um trançado de cestos, cordas, esteiras, telhados de palha, etc. Elas são em geral denominadas de Zan pelos fons.
Também se utiliza a Raphia hookeri para a alimentação com a fabricação do “sodabi” (bebida alcólica tipo vinho; um vinho de palma); para os ritos de zangbeto, de espíritos de caçadores e guaridões da noite; os ritos de vodun, e de iniciação ao vodun, no Benin e na diáspora, enfim que envolvem a confecção de vestimentas e adornos elaborados com as folhas desta palmeira que também é conhecida pelos mahis, nagôs e iorubás sob a denominação de Iko ou Igi Ogoro, em gun seu nome é Apelle Kode ou Oba.
Durante período longo da iniciação os hun'sis (vodunsis; iniciados), além de aprenderem outros trabalhos e estudos religiosos aprendem a trabalhar artezanalmente a palha e a tecê-la, produzindo trabalhos para uso interno do hunkpame (vodunkpame; convento) e para serem vendidos fora dele de modo a angariar fundos que serão anexados nas despesas do mesmo. O convento é o local de preparo do indivíduo para a sociedade, e reintegração à sua família, tendo em vista a obdiência a ancestralidade como principal fator de coesão social.
Existem também a palmeira Hóxódé (Hohode) que é consagrado a Hoho entre os fons, os voduns gêmeos que representam a benção da duplicidade e prosperidade, muito conhecidos entre os nagôs e iorubás como Ibeji.

Elaeis guineensis (Detin; Ede; Igi Okpe)
Muito conhecido na Bahia como Dendezeiro. No Benin é conhecido como Detin em Língua Fongbe e no dialeto Gun (de Allada) que é uma variação do fongbe entre outras, e por Ede em adja. Os nagôs e iorubás denominam este coqueiro por Igi Okpe. Do fervimento se sua polpa surge o azeite-de-dendê (zomi ou ami-vovo dos fons; epò-pupa dos nagôs e iorubás). E do coquinho, o okwe conhecido pelos mahis, é preparado o adin (óleo de sòsò) e isto desagrada a Legba, sendo um legbasu (proibição de Legba; de su- proibição) porquê envolve a destruição do coquinho para seu preparo, e os coquinhos são sagrados de Fá, divindade da advinhação com a qual Legba colabora servindo de intermediário no Fá-Titê (Jogo do Okpele-Ifá em yorùbá), trazendo as respostas de Fá através da leitura dos dùs (destinos). Por isto Legba não gosta do adin.
Devido ao temor que se tem da divindade, as indústrias não costumam utilizar do coquinho de quatro orifícios, ou olhos, sagrados do Fá, e procuram usar nos processos aqueles que não servem para o jogo, com números de olhos distintos. O azeite-de-dendê movimenta uma boa parte do mercado de exportação e do mercado interno de muitos países do oeste africano. Ele é o óleo natural mais rico em vitamina A vegetal (b-carotenos) até então conhecido.
O dendezeiro, que dá frutos que servem ao ritual de advinhação, é consagrado ao vodun Fá.

Trichilia Heudelotii (jogbe)
Este atin de linda folhagem tem o poder de atrair o vodún em alguns rituais específicos.
É um atin muito sagrado e de suma importância nas tradições do culto de Fá Vodún.

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