quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O Vodún Mahi e o Òrisà em Comparação.

Até onde são tecidas comparações entre vodun e awön òrisà? Bem, havemos de entender que as comparações existem, pois no Benin há uma multiculturalidade já bem antiga, o que podemos observar na formação da cultura mahi que luta por uma identidade em comum, porém há a diversidade de clans, sua cultura e costumes herdados pelas novas gerações. O questionamento do Candomblé de Jeje Mahi no Brasil, bem como a denominação de diferentes nações de Jeje no Candomblé brasileiro além do Mina Jeje, é justamente o reflexo do que realmente ocorre naquele território lá no Continente Africano. Quando comparamos o vodun Gu com Ogun, não estamos errados em tecer tal comparação, pois Gu procede do culto nagô de Ogun que adaptou-se à cultura mahi-fon. Ao referirmos que Öya não é vodun mahi, estamos cometendo um grave erro, pois lá foi adotada, culturalmente falando, e passou a ser reverenciada. Já o vodún Sógbó, sendo este sinonímia de Hevioso dentre os mahis, que por ser o vodún do ráio, consequentemente correspondeu-se a Sàngó.
Devemos compreender que os mahis em época de guerra com o Dahomey abrigaram-se a proteção do exército yorùbá de Öyö, e assim conseguiu defender seu território, daí alguns awön òrisà serem cultuados nesta região multicultural; e mesmo na época de escravidão estas divindades nagôs foram trazidas para o Brasil na cultura do mahi escravizado e vendido para a diáspora. Em Cuba também são tecidas comparações, mas a iniciação, os ritos, os cuidados com o vodún e o que ele recebe em termo ritual é o que justifica haver, ou não, uma correspondência entre duas divindades. O culto de Azili por exemplo, vodun da família de Dan, é própio da cultura aja-fon, ao passo que o culto de Òsun vem pelo lado da cultura nagô desde os awön yorùbá, com fundamentos que muito divergem e as fazem divindades individuais, ainda que em Cuba, ou no Brasil, alguns as considere como sendo a mesma divindade.
Ora, se partirmos da concepção de Mami Wata, podemos considerar Yémojà, uma Mami também, porém, lá respeitam-lhe a identidade de Yémojà e de cada mãe d'água, e assim pode-se comparar várias mães Tò vodoun como Naité, Sindasindaé, Òsun, Yémojà, Azili e tantas outras... pois todas são mães d'água, sem que se perca a identidade de cada divindade, essa perda da identidade seria aculturação. Mesmo assim o culto de Mami Wata é um, e o de Azili é outro e ambas delegações costumam se fazer presentes no Dia Nacional do Vodún no Benin para festejar o vodún em pról de um mundo melhor com paz e justiça social, conforme ouvimos costumeiramente nas orações dos vodunnon representantes de delegações presentes ao evento.
Não cabe a nós na diáspora estabelecermos comparações, e sim seguirmos as tradições que nos foram passadas pelos nossos ancestrais, afim de que não cometamos erros e ofensas aos voduns (incluindo no termo os awön òrisà).
Sakpate (ewe) não é fundamentado sem a folha Melão-de-São Caetano. Ele é chamado “Sakpata” entre os fons, como poderia ser o mesmo Obaluaiyé nagô que tem como éwò (proibição yorùbá) esta folha pelos nagôs consagrada ao òrisà Sàngó?
Obaluaiyé não gosta de trepadeiras e de raízes também, já Sakpata recebe o inhame em sua oferenda votiva...e na festividade de sua colheita no Benin.
Até podemos relacioná-los como divindades de poder sobre doenças, ou atribuir uma origem, um ponto distante no tempo, porém nunca dizermos que são a mesma divindade, a mesma cultura, ou que se um vodunsi iniciado em um rito nagô para Obaluaiyé (Omolu- Príncipe; Baba Olu Aiyé; Saponan), que mudou de águas, indo para a cultura Mahi, tornou-se um Sakpatasi... isto não existe! É importante lembrar que dentro do culto ao vodún Sakpata o “ayonu” é o vodúnsì iniciado pela parte nagô (òrisà) e o “azonsi” pela parte fon (vodún propriamente dito).
A grandeza do Mahi está em saber lidar, tanto com Sakpata, quanto com Obaluayié, e outras divindades.
Em http://www.vodoo-benin.info/data/e_about.htm relacionaram o vodún Dan, em um dos quadros apresentados, com o òrisà Obatala dos nagôs, talvez por serem divindades superiores, e/ou das vestes brancas, quando na realidade o vodún “Lisa” é quem corresponde a Obatala. Ainda no mesmo quadro, também relacionaram Oya com o vodún “Aveji Da” dos ewes e fons, que é um vodún relacionado com o ar, porém, é da família de Dan, e que corresponde a Dangla ou a Dangbe, a serpente da vida. (Vide Aveji Da: http://www.mamiwata.com ).
Oya é muito cultuada entre os fons inclusive podemos vê-la rapidamente dançando lá em um festejo de vodún no Benin, numa película cultural brasileira. (Vide vídeo: http://www.youtube.com/watch?gl=GB&hl=en-GB&v=GER6XBLxEko&feature=related )
Quanto aos ritos desenvolvidos no Benin, o referido site é muito recomendável.

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